A utilização de recursos artísticos na educação humaniza e sensibiliza, desperta a criatividade e propicia maior prazer no aprendizado
por Leandro de Almeida Bertola
Em tempos em que a atenção dos estudantes é facilmente dispersada pela possibilidade de dezenas de outras formas de interatividade na comunicação virtual, torna-se relevante utilizarmos métodos criativos e diferenciados, que despertem novamente o interesse dos alunos. Assim, cabe propor a arte como método didático diferencial e refutar a postura tradicional de professor como mero transmissor de conhecimento.
A arte como ferramenta didática não é uma novidade; diversos estudos existem a respeito do tema, mas muitos educadores ainda não percebem a arte como um fator que pode ser determinante para a mudança na relação aluno-professor. O momento é propício para que um novo paradigma educacional seja estabelecido, com respeito ao ser humano e suas emoções, buscando ensinar de forma mais criativa e almejando a interatividade das relações. Com a arte resgatamos os sentimentos de beleza e tornamos as relações humanas mais solidárias.
Em 1999 a Unesco pediu a Edgar Morin que fizesse algumas reflexões a respeito da educação no novo milênio. A ideia do autor resultou no livro Os sete saberes necessários à educação do futuro, em que ele indica a necessidade de se ter o conhecimento da condição humana como elemento fundamental para a educação, ou seja, é preciso compreender como o homem está inserido no contexto social; como está situado no universo; como interage com o outro; e como vive a cultura. Nessa mesma linha de raciocínio, no livro A cabeça bem-feita, Morin diz que "em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana". Desse modo, a arte dentro do cenário escolar se insere como essencial, auxiliando no processo de conhecimento da diversidade cultural e da condição humana.
Um aspecto relevante está relacionado à intuição e, consequentemente, à ciência que também se constitui em processos intuitivos. Nos apontamentos de Fayga Ostrower, em Universos da arte, observamos que a arte é uma forma de união com a ciência, pois ambas contêm processos intuitivos. Quando se trabalha com arte se instiga o desenvolvimento do processo científico.
Deixando de lado a função social que representa as obras artísticas, a arte também pode ser enxergada sob o aspecto do prazer. Existe aproximação entre ciência e arte e há aspectos ligados também à racionalidade, entretanto, outra faceta surge da não razão, de características ligadas às emoções e aos sentimentos, capazes de seduzir e encantar as pessoas. É o que nos traz Jorge Coli ao abordar a razão nos objetos artísticos, verificando a existência de elementos que escapam à racionalidade, perfazendo uma comunicação (além da via da razão) através de outras vias: emoção, espanto, intuição, associações, evocações, seduções. Tanto a razão como a não razão são importantes para a construção do conhecimento, mas é interessante o destaque de que certos aspectos não se explicam pela via da razão.
A arte, além de contribuir no aspecto estético da comunicação, incentiva a construção de uma sociedade mais humana e solidária, humanizando os participantes, os quais necessitam não somente de conhecimentos técnicos, mas de uma alma que brilhe e os projete para um futuro moldado nos princípios da dignidade humana e da solidariedade. Com a arte podemos dar à aula mais beleza estética, porém, sempre almejando o compromisso social na formação das pessoas e melhoria da qualidade nas relações humanas. Enfim, com arte tem-se estética e conteúdo.
Observa-se ainda, na visão de Fayga Ostrower, que todo ser humano tem potencial artístico e todos se utilizam diariamente de linguagens artísticas sem terem consciência disso. A arte também se relaciona com fatores históricos; sociológicos; econômicos; políticos; psicológicos etc.
Contudo, a proposta de contribuir com o ensino através da utilização da arte não perde de vista a realidade singular que se estabelece em cada sala de aula, ou seja, cada escola; cada aluno; cada professor e cada pessoa envolvida no processo de ensino-aprendizagem possuem vivências, experiências e características singulares. Por isso, a arte deve ser vista como um instrumento didático complementar ao ensino (essencial sim, mas não única). Não é prudente acreditar que o ensino deva ser consubstanciado apenas através da arte nem que se estabeleça um método ou modelo predefinido para aplicar sempre e em toda sala de aula.
Dessa forma, o professor precisa conhecer diversas ferramentas e possibilidades para em conjunto e no diálogo com os alunos aplicar à realidade de cada ambiente. A arte seria um desses recursos didáticos, porém, visto como um fator para somar, mas não uma única forma de ensinar.
Fonte: http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=12770
segunda-feira, 18 de julho de 2011
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